As generalizações são terríveis. Porém, há momentos, coisas que nos acontecem, ou que presenciamos, que acabam por nos marcar. E, aos poucos, vamos fazendo generalizações. Ontem apareceu cá um alemão. A dormir nas ruas porque supostamente foi assaltado cá e ficou sem nada. Tinha papéis da polícia. Também dizia que tinha vindo de Lisboa praticamente a andar porque cá ninguém dá boleias. Apareceu de manhã cedo. Depois voltou antes do almoço. Voltou diferente, irritado. Insultou-nos, estava alterado, falou mal dos portugueses e do país. Disse que quando a Alemanha deixasse de pagar a Portugal que nos ia acontecer o mesmo que à Grécia. Que aqui não os ajudamos, só ajudamos os portugueses. Que ele foi assaltado e ninguém o apoia, ninguém o deixa tomar banho, ninguém lhe dá roupa. Rejeitou a que nós lhe demos porque era demasiado grande, quando eu o tinha avisado desse facto. Pensei mesmo que ele me ia dar um estalo, um empurrão, um murro, tal era o ódio nas palavras dele. Mas mantive-me firme, frente a ele, procurando não mostrar medo. E depois disto comecei a generalizar, comecei a pensar em nazis (porque me vi como uma judia insultada por um), e pensei que o próximo alemão que cá aparecer não vai ter sorte.
Um dia isto passa.